Certa noite... estava na rodoviária de Caxias do Sul. Não eram muitas as almas ali presentes.
Quase todas estavam sentadas, ou perdidas em meio à sombras de postes pifados.
O faxineiro que caminhava arrastando o seu carrinho, seus passos e o ranger de rodas, eram os únicos soares que o lugar me permitia escutar.
Soares interrompidos de vez em quando por barulhos importunos, de tosses de fumantes, e pneus passando em possas d'água.
As poucas lâmpadas fluorescentes que havia lá, só serviam praticamente para revelar a névoa alimentada por diversos cigarros...
Pouco iluminavam os semblantes das pobres criaturas castigadas pelo tempo, as alimentadas por sonhos principalmente, e desejos mal direcionados.
Lembro que toda vez que o faxineiro passava por mim, olhava para meu par de tênis brancos.
Olhava diretamente para mim com um olhar triste, e voltava a seguir seu caminho de cabeça baixa.
Enquanto juntava os tocos de cigarro, olhava para o céu estrelado.
Seus olhos negros brilhavam intensamente, como se dissesse para si mesmo: Um dia ainda terei um par de tênis como aqueles.
Um desejo simples, para uma vida efêmera que tinha poucos segundos de sonhar.
Sem ter o que fazer... Eu esperava pacientemente a minha carona que parecia nunca chegar.
Me distraía olhando para as marcas nas paredes, feitas por seres incompreendidos...
Eram tais quais de prisões. Como se não pudessem esperar o dia em que finalmente sairiam daquele inferno.
Tocava naquelas marcas, e então, podia sentir a dor que eles sentiam.
Fechava os olhos... E em meio a tantas tosses, e a tatear paredes. Flashs de visões eu recebia.
Era como se... Estivesse em uma maternidade vazia.
Pois ao invés de ouvir o choro de bebês que recém teriam nascido, ouvia o doloroso som de tosses de seres que estavam prestes a morrer...
Eu sabia que... Enquanto estivesse naquele lugar, a morte se manteria viva em mim.
Mas nunca pensei, que em um dia veria a face dela tão de perto...
Um pedacinho dela, em cada um de todos nós.
Bruno Brechane ~
Quase todas estavam sentadas, ou perdidas em meio à sombras de postes pifados.
O faxineiro que caminhava arrastando o seu carrinho, seus passos e o ranger de rodas, eram os únicos soares que o lugar me permitia escutar.
Soares interrompidos de vez em quando por barulhos importunos, de tosses de fumantes, e pneus passando em possas d'água.
As poucas lâmpadas fluorescentes que havia lá, só serviam praticamente para revelar a névoa alimentada por diversos cigarros...
Pouco iluminavam os semblantes das pobres criaturas castigadas pelo tempo, as alimentadas por sonhos principalmente, e desejos mal direcionados.
Lembro que toda vez que o faxineiro passava por mim, olhava para meu par de tênis brancos.
Olhava diretamente para mim com um olhar triste, e voltava a seguir seu caminho de cabeça baixa.
Enquanto juntava os tocos de cigarro, olhava para o céu estrelado.
Seus olhos negros brilhavam intensamente, como se dissesse para si mesmo: Um dia ainda terei um par de tênis como aqueles.
Um desejo simples, para uma vida efêmera que tinha poucos segundos de sonhar.
Sem ter o que fazer... Eu esperava pacientemente a minha carona que parecia nunca chegar.
Me distraía olhando para as marcas nas paredes, feitas por seres incompreendidos...
Eram tais quais de prisões. Como se não pudessem esperar o dia em que finalmente sairiam daquele inferno.
Tocava naquelas marcas, e então, podia sentir a dor que eles sentiam.
Fechava os olhos... E em meio a tantas tosses, e a tatear paredes. Flashs de visões eu recebia.
Era como se... Estivesse em uma maternidade vazia.
Pois ao invés de ouvir o choro de bebês que recém teriam nascido, ouvia o doloroso som de tosses de seres que estavam prestes a morrer...
Eu sabia que... Enquanto estivesse naquele lugar, a morte se manteria viva em mim.
Mas nunca pensei, que em um dia veria a face dela tão de perto...
Um pedacinho dela, em cada um de todos nós.
Bruno Brechane ~
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